NA PLENITUDE DA IDADE DEMONÍACA


Plínio Salgado

Extraído de:
“No ritmo da história” de Plínio Salgado, Ed. Voz do Oeste - São Paulo, 1978

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I

           Para que o nosso espírito possa compreender toda a extensão, toda a profundidade e as causas mais secretas dos males que afligem o nosso tempo é necessário que ele se aparte do convívio quotidiano dos homens, isentando-se de simpatias e antipatias, para considerar, como simples espectador, essa tragicomédia em que se exaurem e se consomem os egoísmos cruéis e as ambições mais cegas.

            É preciso ainda que o observador tenha chegado àquele estado de abstenção total das almas terrenas, depurando-se de todo interesse pessoal e vivificando-se unicamente pelo desejo de lograr o bem alheio, para que os seus olhos não se turvem com os argueiros provindos das íntimas paixões do seu próprio ser.

            Então, no silencioso altiplano onde nem mesmo se escutam as vozes interiores de que se servem os sofismas da inteligência para atender às imposições dos inconfessáveis desejos, o espírito humano pode apreciar e julgar a sociedade dos homens, sem ódios, sem ressentimentos, sem predileções, sem afeições ou desafeições particulares, mas apenas animado por justiça ao mesmo tempo austera e indulgente.

            Assim colocado, o nosso espírito, trazendo para o alto o cabedal de experiências dolorosas obtidas no convívio dessa imensa planície onde os homens são, ao mesmo tempo, eternas crianças, a disputar ninharias, e ferozes animais a se destruírem mutuamente, pode avaliar toda a extensão das desgraças contemporâneas, apreciando-as sob todos os aspectos e reduzindo-as a uma causa única. E, descobrindo essa causa única, pode, sem dúvida, oferecer ao mundo o único remédio a tantos infortúnios e desgraças.

            A nossa chamada civilização ocidental encontra-se, na opinião de todos os idealistas e pensadores, assoberbada por dois males: o capitalismo e o comunismo. O homem, as suas liberdades, a sua dignidade sentem-se ameaçados por uma gradual ou violenta absorção de grupos monopolizadores e opressores, que se organizam fora do Estado ou se identificam com o próprio Estado. Mas essas duas ameaças não passam de conseqüências de uma psicologia expressiva dos dias brutais em que vivemos: a psicologia de um egoísmo sem freios, que corresponde, ciclicamente, àquele individualismo em que se traduziram os anseios do romantismo nos valores de século XIX.

            Que individualismo liberal e romântico é o prefácio do coletivismo, eis uma verdade já verificada no transcurso de um século. Foi esse individualismo que se derramou nas páginas de Goethe, de Lamartine, de George Sand; que se expandiu nas revoluções políticas e no ritmo desagregador dos partidos; que se alargou e imperou no desenvolvimento econômico dos povos, com a nota predominante da usurpação impositiva de grupos financeiros em detrimento dos trabalhadores e das famílias; e que, finalmente, desviou a humanidade dos seus superiores destinos, dando-lhe por único pasto os vis interesses materiais.

            Dessa forma, a partir da segunda metade do século XIX, deflagrou-se a luta entre os homens, de modo terrível. Homo hominis lupus, tornou-se o emblema das relações humanas sob a égide de um egoísmo cego e inconseqüente. Atualizava-se o pensamento de Plauto, pois na realidade o homem se tornou o lobo do homem, sem nenhuma consideração de ordem moral.

            A guerra entre os competidores no comércio, a batalha da concorrência nas praças consumidoras, o combate entre os detentores do capital e os agentes do trabalho, paralelizavam-se com o choque dos partidos políticos, a estraçalhar-se mutuamente dos próprios correligionários desses partidos nas querelas internas das facções, as disputas dos cargos rendosos e das posições de comando, as discórdias em todos os setores da vida humana, inclusive no próprio ambiente do lar doméstico.

            Partindo do individualismo romântico do século XIX, temos chegado ao egoísmo realista do século XX. E, com o aceleramento da velocidade, o egoísmo tornou-se sofreguidão, pressa vertiginosa de vencer, de atingir o máximo no menor tempo. O aventureirismo político já esboçado por Napoleão III, Bismarck e a Rainha Vitória, ganhou subitamente, com o advento das massas inconscientes a substituírem o povo consciente, uma velocidade espantosa em nossos dias. Mas esse espírito de aventura estende-se a todos os setores da vida humana, instaurando o “golpismo”, como estilo e técnica de rápido enriquecimento e rápida ascensão. Se no período em que predominou o utilitarismo corriam todos atrás das coisas materiais, hoje que impera esse mesmo utilitarismo traduzido nas formas mais execráveis do egoísmo, a humanidade despencou-se no abismo das paixões animada por uma sofreguidão, uma pressa, que revela, no fundo, o anseio de gozar o mais imediatamente possível os bens do mundo.

            Essa pressa evidencia também um supermaterialismo, horrendo nos seus aspectos, insensato e trágico nos seus desígnios. Já não é possível conceberem-se os gestos altíssimos de renúncia; já ninguém compreende a possibilidade de alguém nada querer para si, nada ambicionar senão o bem dos seus semelhantes. Porque achando-se todos espicaçados pelo muito querer, perderam o sentido das belas atitudes e das espirituais posições de desprezo pelas coisas materiais.

            O homem, que continua a ser o mesmo que se encontra nas páginas de Ésquilo, de Shakespeare, de Balzac, agravou os seus próprios males pela velocidade que imprimiu às suas paixões. Quer ser veloz, quer ir depressa, porque sente a vida curta e porque, no íntimo, prefere as coisas efêmeras e despreza as coisas eternas.

            Em última análise, as desgraças do nosso tempo decorrem da ausência de religiosidade. O homem desligou-se de Deus, das aspirações tendentes a um destino eterno. Fala-se numa civilização cristã, mas esta civilização age materialistamente. Pois é entre cristãos, é entre homens que se dizem de cristo, que se verificam as discórdias, as disputas pelos cargos, pelas posições, pelo dinheiro, pelas glórias ridículas do mundo. Quem observa a sociedade atual nota, forçosamente nota, que os cristãos se preocupam, tanto como os pagãos, somente com os bens terrenos, que colocam sempre acima dos bens do espírito. Vivemos uma época de cristianismo puramente nominal, sem nenhum conteúdo de Cristo. E essa é a suprema desgraça da chamada civilização ocidental.

            Como conseguiremos nos opor contra as forças organizadas do capitalismo ou do comunismo, se não encontramos no seio da sociedade que se diz cristã os elementos de aglutinação das forças salvadoras? Como unir, se o orgulho é mais forte, a ambição mais prepotente, as odiosidades mais imperativas, o egoísmo mais decisivo, do que os superiores objetivos de uma ação comum em face do mal? Como combater o mal se o mal está em nós mesmos? Como lutar contra as forças dissolventes, se dentro da nossa cidadela se encontram os germes da dissolução?

            Pobre mundo! Infeliz século! Diante das suas calamidades, os que pensam e sofrem a dor de ver transviado para o mal o curso de uma civilização que se diz inspirada no cristianismo, não vêem para onde ou para quem apelar, senão para Deus. E, apelando para Deus, nesta Idade Demoníaca, os que se compadecem diante do triste espetáculo que os homens apresentam, precisam ofertar aos Céus os seus pensamentos puros, os seus sentimentos cândidos, juntamente com o sacrifício que hoje representa, a quantos querem viver pelo espírito, o convívio doloroso, cheio ao sopro infernal do materialismo.

I I

            Insistirei, teimarei, repetirei por todas as formas, em todas as ocasiões que se oferecerem: o problema do mundo de hoje é essencialmente espiritual, direi mesmo religioso.

            Critiquem-me os pragmáticos; apontem-me como sonhador os que a se  dão por objetivos e realistas; lamentem-me os que me desejariam ver manipulando comentários ou intrigas nas provetas dos fatos quotidianos; deplorem-me os que me julgarem abstêmio das preocupações imediatistas em que se exaurem as sociedades políticas e literárias do nosso tempo: - e eu continuarei proclamando que o único problema que os homens e as nações têm a resolver é o problema do Espírito.

            Mas quando me refiro ao Espírito, não tomo esta palavra nas suas expressões ambíguas, a significar vida intelectual, índices culturais, aspirações ou realizações artísticas, padrões de vida social. Não quero com essa palavra “espírito” exprimir a quintessência da civilização, ou o caráter, o temperamento, as tendências de um povo, nem tão pouco aludir a formas de inteligência ou ao sentido dessas formas e às crises em que se debatem os dramáticos espectadores das aventuras filosóficas dos eleatas e epicuristas contemporâneos.

            Falo do Espírito mesmo. Falo do espírito como realidade. Em suma: falo da Alma do Homem. Ponho em equação o problema da Alma Humana.

            Não há outro mais importante na hierarquia lógica das nossas cogitações, quando assumimos a atitude sincera com que exprimimos uma dor verdadeiramente sentida.

            Desse problema decorrem todos os outros. Da sua solução dependem as soluções de todas as dificuldades individuais, familiares, sociais, econômicas, políticas, nacionais e internacionais do século em que vivemos.

            É preciso pôr ordem nos espíritos.

            Mas essa ordem não a encontramos no mundo irreal das elocubrações subtis onde a inteligência se perde como um náufrago na imensidade do oceano.

            Debalde reviveremos as inquietações pascalianas, os debates jansenitas sobre a predestinação, ou as antiqüíssimas querelas dos bizantinos acerca da luz incriada, enquanto os turcos sitiavam Constantinopla. Inutilmente atualizaremos e discutiremos as mil questões dos céticos, dos nominalistas, dos racionalistas, dos sensualistas, dos naturalistas, dos panteístas, dos idealistas travestidos em novas roupagens muitas vezes urdidas com os remendos das mais variadas filosofias. Não conseguiremos com isso outra coisa senão nos metermos na balbúrdia de uma feira, onde todos falam, poucos ouvem, ninguém se entende e cada um sai mais confuso e perturbado.

            Não será adubando crises subjetivas ou revolvendo o entulho da parlapatice universal em polêmicas estéreis que conseguiremos atingir o equilíbrio moral de que depende a ordem social e a paz entre os homens.

            Assistimos hoje o ressurgir de um humanismo do tipo erasmiano, a evitar comprometer-se em atitudes definidas capazes de provocar incômodos na profissão, na carreira ou nos negócios, quebrando o ritmo epicurista de uma existência brilhante de prazeres. Dentro dessa atmosfera proliferam todas as desordens intelectuais e morais, refluindo, sob formas cautelosas de transigências, vetustas heresias com ares de novidades.

            Vivemos hoje uma época em tudo semelhante aos tempos periodicamente repetitivos da História, em que surgem, sob aspectos diversos, novos rebentos de gnósticos, de maniqueístas, de  pelagianos, de arianos, de albigenses, e pretender conciliar suas complicações mentais com a pureza simples de verdade cristã.

            O fato incontestável é que os êmulos de Pascal em nosso tempo não fazem mais do que aparentar, nas atitudes melancólicas das dúvidas consuntivas, o oportunismo de Erasmo de Roterdan, a ajeitar a ortodoxia do seu credo ao gosto da moda e às injunções das correntes literárias do cartaz.

            A preocupação de atualizar-se, de acompanhar a onda do pensamento moderno, leva a muitos indivíduos, que se confessam cristãos, a tentar o conúbio de sub-filosofias da atualidade com a doutrina do evangelho. Outros, como os antioquianos ou nestorianos, a insurgir-se contra Arrio, pretendem combater certos erros engendrando erros mais graves. Arregimentam-se terceiros a coibir o zelo reacionário, mas caem no extremo oposto implantando com erros superlativos, que a vaidade agrava e eriça, a confusão geral que a todos desorienta.

            O que se gasta de tempo e espaço em arrazoados infindáveis e papel de jornal, queimando-se os fogos de artifícios dos debates inúteis, é verdadeiramente assombroso. Tudo sem o menor resultado benéfico à solução do problema espiritual que aflige os indivíduos e os povos.

            Há uma preocupação erasmiana de acomodar as linhas simples da verdade eterna com as loucuras e dispautérios do mundo. Não há doutrina que surja baseada nas hipóteses do experimentalismo científico ou nas elocubrações de cérebros doentios, que logo se não pretenda assimila-la enquadrando-a nos limites da ortodoxia católica, sob o pretexto de que, exercendo elas fascínio sobre as massas, representam forças que vale a pena aproveitar para maior rendimento do bem.

            Essa atitude covarde de transigência com a demagogia e com a efêmera maré dos caprichos das multidões magnetizadas por quantos Simões Mágicos ou Cagliostros produz o charlatanismo político do nosso tempo, considero-a a principal responsável pela desgraças da humanidade neste século.

            É uma vergonha o convívio amistoso e o conúbio cínico de intelectuais que se dizem cristãos com o teor da vida e o timbre do caráter de confrades materialistas cujas doutrinas filosóficas e cujos conceitos éticos ou estéticos predominam sempre quando fazem liga, à fusão desmoralizante de complacências e tolerâncias absurdas.

            Já se tem cogitado de cristianizar o marxismo materialista, ou epicurismo plutocrata, ou liberalismo determinista e até de captar, dirigir e transfundir o existencialismo, que sintetiza aqueles três males, amoldando-o às normas da vida cristã. Fala-se de um socialismo domesticado segundo os preceitos do Evangelho, com a mesma naturalidade com que um louco falaria em domesticar animais selvagens que há milênios o homem não conseguiu trazer para o convívio do lar.

            Vivemos hoje no período áureo do ressurgimento sofista. Com papel e tinta desenvolvem seus argumentos variadas espécies de Pródigos, Críticas e Trasímacos, restaurando em nosso século a pedanteira dos discutidores de Atenas, os quais à força de provar que preto é branco e que o branco é preto, ridicularizam a lógica e a si mesmo se ridicularizam, demonstrando, ao cabo de tanto falar e escrever, tudo defendendo sem nada sustentar convictamente, que a verdade é a mais inverídica das coisas e que os argumentos deduzidos pelos homens não passam, como exclamou Hamlet, de palavras, palavras e palavras...

            Não falam modernos Protágoras relativistas, ou novos Górgias que tudo negam ainda quando afirmam, a ensinar dialética e retórica em calhamaços infindáveis de crítica literária e de divagações políticas. Requentam sistemas, desenterram teorias, escovam múmias, pulverizam a Detefon as traças e baratas do pensamento antigo, e misturando conceitos de variadas escolas, apresentam, como que novidades da última moda, os arranjos filosóficos com que pretendem resolver o problema do mundo nas portas das livrarias e nas mesas de café.

            Tudo é moderno, moderníssimo como as pirâmides do Egito. Tudo é atualizado como as músicas clássicas de fox americano. Dois dedos de Spinoza, três de Schopenhauer, uma pitada de James, outra de Bérgson, algumas fumaçadas de Nietzsche, e temos uma filosofia nova, misto de Aristipo de Cirene – eufórico hedonista e alegre precursor da maconha e do suicídio dos fracassados.

            Bebe-se, come-se, dança-se, joga-se, pratica-se o câmbio negro e a adoração do Bezerro de Ouro, com suspiros de fundo de Leopardi, bizarrices de Baudalaire e tédios de Byron, contraponteando sibaritismos elegantes e fundas melancólicas de crises distintíssimas, como é da moda entre gente de alto coturno literário.

            Tal é o problema do espírito para os habitantes do mundo das letras em Paris, Londres, Nova Iorque ou Rio de Janeiro...

            Enquanto isso, a sociedade do mundo ocidental vai se dissolvendo, vai apodrecendo e tresandando o fedor das decomposições, fibra por fibra, dos elementos que a constituem.

            Vai mal a economia dos povos, vai mal a administração pública, vai mal a política dos partidos, vai mal a vida das famílias; destroem-se os degraus de toda a hierarquia dos valores morais; degrada-se o sistema de educação nas escolas primárias, secundárias e superiores; corrompe-se o funcionalismo; anarquiza-se o trabalho; pervertem-se os homens, inflamam-se as mulheres, multiplicam-se os adultérios, oficializa-se a pornografia no cinema, nas revistas ilustradas, nos teatros, no rádio e nos romances, estalam – molécula a molécula – as estruturas das nações: e o socorro para tamanhos e tão catastróficos males vai se procurar na discussão bisantina das questões complicadas em vez de se empregarem as inteligências, armadas de vontade decidida, na campanha urgentíssima  de profilaxia, terapêutica e saneamento com que se curem os beribéricos e escorbúticos  da alma, que definham à míngua de vitaminas de brio.

            Não há duas opiniões sobre a nossa desmoralizada sociedade. É colocar face a face dois dos nossos contemporâneos e puxar pelo assunto. Cada um conta uma infinidade de casos de subornos, de prevaricações, de malversações, de negligências de funcionários; cada um narra meia dúzia de negociatas de que foi testemunha ou de que ouviu falar, em que tomaram parte altos e até altíssimos personagens de governo, de partidos ou simplesmente da elite granfina; cada um possui, para uso próprio e defastio em conversas ociosas, um Decameroni de Boccaccio, anedotas bocagianas ou aretinas, antologias de Kamasutra e florilégios de aventuras e fraseados de Pantagruel, em que entram, como comparsas de grossas bandalheiras, senhoras de alta plutocracia e cavalheiros com fitilhos de comendas papais à lapela ou diplomas encaixilhados de sócios beneméritos de Ligas abstêmias ou Associações pro-Decoro Público.

            Vai tudo mal, dizem. Não há remédio, exclamam. Isto é um país perdido, rugem os leões da pudicícia e da honestidade puritanas. E ao passo que uns vociferam contra as gorgetas tornadas instituições, outros clamam contra as percentagens que pagaram à assinatura de contratos por serviços públicos, ainda outros esperneiam pela preferência que obteve a amante do Ministro, do Senador ou do Desembargador em detrimento de seus direitos, e outros ainda comentam a vida secreta de certos Catões que refazem as forças no magistério, à sombra de confortáveis tabaidas não sabidas nem sonhadas pelos de suas audiência, entregam-se aos auspícios de discretas Afrodites da estirpe das Marias Candelárias.

            Este reclama, porque os cinemas trazem beijos demais, os teatros são apimentados e despigmentados de vergonha, os jornais e revistas ilustradas lhe entram pela casa mostrando às filhas os clichês que podem lhes excitar os humores; aquele berra porque as danças são muito agarradas ou porque na boites presenciou, à cumplicidade da escuridão ali reinante, os maridos se enganarem bebendo o whisky  dos amigos, enquanto os amigos  nada enganados, beijam-lhe as esposas ao inocente compasso de alguma dança ingênua; aqueleoutro sabe de garçonnières   onde velhos devassos tiberisam a senectude e altimetrizam a pressão arterial em taquicardias dionisíacas, e sabe também de alguns mistérios elêusicos de virgens versadas em técnicas psicanalíticas ou rapazes gideanos que reproduzem retratos de Dorian Gray em Cíteras de Sacopã.

            “Já não se pode freqüentar a sociedade”, lamentam os últimos varões e matronas da República. E alegam que os casais se renovam e se revezam na sucessividade de divórcios e matrimônios anuais; que o fumo, o álcool e o pif-paf são hoje as preocupações únicas da alta roda; que as conversas giram entorno, exclusivamente, de automóveis, hotéis, modas, jóias, maledicência tesourando ausentes;  que vai desaparecendo, dia a dia, a vida do lar e da família; que já se não sabe quem e como receber em casa; que os escândalos de há uns dez anos atrás são hoje coisa corriqueira no convívio de alto bordo; e por ai vão em lamúria de Jeremias a prantear sobre as ruínas da cidade antiga.

            Passadismos!, dizem os avançados, os modernos, os sabichões, os faustosos Cresos e os finos literatos bem nutridos por sinecuras de ministérios. E o país rola, desaba, pulveriza-se, enlameia-se, enquanto aqueles, que deveriam, por dever de crença, por fidelidade ao Cristo, fazer-se paladinos da mais gloriosa da batalhas, vão gastando o cérebro escaldado e a vaidade fútil nas discussões infindáveis, exasperantes, inúteis e criminosas sobre temas complicados de filosofia ociosa e altas indagações acerca de problemazinhos secundários...

            Como resolver as questões magnas da nossa economia, das nossas finanças, do trabalho nacional e da produção do país; e como estabelecer um largo plano com que solucionar as necessidades básicas da nossa vida material; e como sacudir  num trabalho intenso e poderoso a máquina administrativa da nação; e como coordenar todas as forças da pátria numa arrancada gloriosa de realizações, se nos falta o principal, que é a honestidade pública, e se esta depende da honestidade privada, a qual desaparece desastrosamente em todas as classes sociais?

            E como restaurar o teor saudável da vida pessoal de cada um, se não encararmos de frente, e resolvidos a solucionar, o problema do espírito, ou melhor, o problema da Alma do Homem?

            Por isso, insisto, repito, repetirei sempre, teimosamente; o problema do mundo de hoje é, antes de tudo, espiritual, religioso.